Research Unit.
Petróleo acima de 100 dólares ameaça travar economia portuguesa em 2026
O agravamento da crise no Médio Oriente está a pressionar fortemente os preços do petróleo e a colocar em risco o cenário macroeconómico traçado pelo Governo português para 2026. De acordo com uma análise da BA&N Research Unit, a persistência do Brent acima dos 100 dólares por barril pode cortar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional para cerca de metade do previsto no Orçamento do Estado.
Brent dispara e já supera previsões oficiais
A cotação do petróleo tem registado uma escalada acentuada desde o início do ano, impulsionada pela guerra no Irão e pela disrupção no Golfo Pérsico. Em março, o Brent atingiu 119,5 dólares por barril — máximos desde 2022 — acumulando uma valorização de cerca de 88% desde janeiro.
Este nível coloca o preço do crude mais de 70% acima da estimativa considerada pelo Ministério das Finanças no Orçamento do Estado para 2026, que apontava para uma média de 65,4 dólares por barril. Para que essa previsão se concretize, o petróleo teria de cair para cerca de 63 dólares durante o resto do ano, um cenário considerado pouco provável no atual contexto geopolítico.
Impacto direto no crescimento económico
Portugal continua fortemente dependente da importação de energia, o que o torna particularmente vulnerável a choques nos preços internacionais. A análise indica que, caso o petróleo permaneça na casa dos três dígitos, o impacto negativo no PIB poderá variar entre 0,3 e 1,1 pontos percentuais.
No cenário mais pessimista, alinhado com estimativas do Fundo Monetário Internacional, o crescimento económico poderá cair para cerca de 1,2% em 2026 - aproximadamente metade dos 2,3% projetados pelo Governo.
Já numa situação extrema, com o Brent a aproximar-se dos 120 dólares ou mais, o crescimento pode ficar próximo de zero, traduzindo o pior desempenho económico desde a pandemia (excluindo esse período) e o mais fraco desde 2014.

Consumo e investimento sob pressão
O aumento dos preços energéticos deverá ter efeitos em cadeia na economia. A subida dos combustíveis já está a pressionar o rendimento disponível das famílias e tende a refletir-se no aumento generalizado dos preços de bens e serviços.
Este contexto poderá levar a uma retração do consumo privado e a um abrandamento do investimento empresarial, devido ao aumento dos custos de produção. Apesar de parte do impacto ser mitigado por uma redução das importações, o saldo global permanece negativo para a atividade económica.
Inflação também em risco
Além do crescimento, a inflação surge como outra variável crítica. Enquanto o Governo estima um impacto moderado, instituições como o Banco Central Europeu e o FMI apontam para um aumento mais expressivo dos preços.
Caso o petróleo se mantenha acima dos 100 dólares, a inflação poderá subir até dois pontos percentuais, agravando ainda mais a pressão sobre famílias e empresas.
Elevada incerteza condiciona previsões
O desfecho da guerra no Irão será determinante para a evolução dos preços energéticos. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, continua a ser um ponto crítico, e eventuais danos duradouros nas infraestruturas da região poderão manter os preços elevados por mais tempo.
Mesmo num cenário de alívio do conflito, os analistas consideram improvável um regresso aos níveis pré-guerra no curto prazo, o que reforça os riscos para a economia portuguesa.
Governo poderá rever cenário macroeconómico
A persistência de preços elevados do petróleo coloca pressão sobre as contas públicas e poderá obrigar o Executivo a rever o cenário macroeconómico inscrito no Orçamento do Estado.
Se as estimativas mais conservadoras do Governo se confirmarem, o impacto será limitado. No entanto, caso se materialize o cenário mais adverso apontado por instituições internacionais, Portugal poderá enfrentar um choque energético com efeitos significativos no crescimento, inflação e equilíbrio económico em 2026.